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18/10/2008 21:13:00

Receita abre ação contra investigados por milícia

Fiscais detectam série de irregularidades nas declarações de renda de suspeitos de integrar grupos paramilitares que atuam na Zona Oeste

Thiago Prado


Rio - O Leão fechou o cerco aos investigados por chefiar milícias no Rio. A Receita Federal detectou irregularidades na declaração de renda e na movimentação financeira de dez investigados de comandar grupos paramilitares de Rio das Pedras, Gardênia Azul, Bangu e Campo Grande. Todos foram citados pela série de reportagens ‘Dossiê Milícia’ — publicadas desde julho por O DIA —, que revelou o patrimônio milionário acumulado por policiais e bombeiros nos últimos anos. Os envolvidos poderão ser obrigados a pagar duas vezes e meia o que deixaram de recolher aos cofres públicos nos últimos cinco anos.

A análise dos dados foi feita pelo Fisco este mês com a ajuda do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) do Ministério da Fazenda. O levantamento aponta que, anualmente, as movimentações financeiras dos suspeitos e seus parentes são superiores aos rendimentos que recebem. Há ainda casos de transações bancárias que superam em mais de dez vezes o valor que os investigados recebem de salário anual.

Até agora, foram levantadas as declarações e movimentações do bombeiro e vereador eleito Cristiano Girão (PMN); do deputado estadual Natalino Guimarães; do vereador Jerônimo Guimarães Filho, o Jerominho (PMDB); do capitão PM Epaminondas Queiroz; do major Dilo Soares; dos irmãos Dalmir (sargento PM) e Dalcemir Barbosa; do inspetor de polícia Fábio Menezes Leão; e dos irmãos Ênio (ex-sargento PM) e Flávio Fiocchi (cabo Bombeiro).

COMPRA DE SEGUROS

Um relatório do Coaf aponta que duas operações financeiras atípicas foram feitas em 2006 e 2007 por dois investigados de ligação com a milícia de Rio das Pedras. O sargento Dalmir adquiriu o equivalente a R$ 5 milhões em apólices de seguros. Os papéis foram obtidos em três parcelas: nos dias 18 e 28 de agosto de 2006 e em 16 de fevereiro do ano passado. Esta não foi a primeira aquisição considerada pouco usual por parte do policial. Em 2006, Dalmir comprou uma cobertura na Barra da Tijuca por R$ 300 mil, em dinheiro vivo.

Outra que direcionou parte de seus investimentos para a mesma finalidade foi a mulher do capitão Queiroz, que comprou R$ 1,8 milhão em apólices no ano passado. Também foi dela a iniciativa de adquirir, no ano 2000, um apartamento no luxuoso condomínio Golden Green, na Barra da Tijuca, avaliado hoje em R$ 1,8 milhão.

Como são duas transações com valores muito acima da média, a suspeita dos órgãos reguladores é de que o mecanismo esteja sendo usado para lavagem de dinheiro dos investigados.

SEM VÍNCULOS COM EMPRESAS

Dados do Cadastro Nacional de Informações Sociais (CNIS) do Ministério da Previdência podem complicar ainda mais a situação dos investigados. Vários deles não apresentaram vínculos com as empresas que aparecem como suas na Junta Comercial do Rio.

Os irmãos Dalmir e Dalcemir — que hoje constam como donos de empresas de turismo e transporte e que já foram proprietários do restaurante Estação Azul, em Rio das Pedras — nunca apareceram no cadastro como ligados a esses negócios.

Outro caso semelhante é o do capitão Queiroz, que já foi sócio da empresa de vigilância Protec. Para a Previdência, as únicas fontes de renda do oficial até hoje foram o soldo na PM e um salário da época em que foi lotado no gabinete militar da Prefeitura.

Já o major Dilo Soares, que durante anos foi dono da empresa de empréstimos Areal Cred Fomento, teve três vínculos trabalhistas na vida não ligados à financeira. Foi empregado da Casa Masson S.A em 1980, integrou os quadros do Exército em 1984 e ingressou na PM três anos depois.

Sem renda, mas com bens

A personagem que desperta até agora a maior curiosidade da Receita é a ex-mulher do bombeiro Cristiano Girão. Solange Ferreira Vieira nunca teve carteira assinada na vida, já teve o nome sujo no Serasa e, mesmo assim, possui bens e movimentação financeira impressionante desde 2003.

O cruzamento de dados da Receita com o Coaf mostra que a soma das transações bancárias de Solange nos últimos cinco anos é 20 vezes maior do que seus rendimentos declarados. No ano passado, no entanto, ela simplesmente parou de depositar ou retirar dinheiro.

Em 2006, ela e Girão — já separados — fizeram uma inusitada negociação: o bombeiro repassou para Solange o imóvel onde mora atualmente na Barra da Tijuca — avaliado em R$ 500 mil — por apenas R$ 15 mil. Em depoimento na CPI das Milícias, o militar afirmou que fez a “doação” a pedido do advogado da ex-mulher.

Solange chegou a ser sócia minoritária do ex-marido em duas lojas comerciais em Gardênia Azul: a C. Lages e a Girão Madeiras. A média de seus rendimentos era de R$ 1 mil. Mesmo assim, ela não teve vínculos empregatícios com as empresas.
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