Rio - Para sacar vultosas quantias na boca do caixa do Banco Itaú da Rua da Passagem, em Botafogo, a quadrilha contava com a proteção de policiais militares. De acordo com o Ministério Público, os acusados montavam, junto com PMs, comboio de segurança entre os dias 13 e 15 de cada mês, quando o dinheiro era depositado na conta da Procefet e transferido para a Filipenses.
Um funcionário da agência ouvido pelo MP contou que do lado de fora do banco policiais militares fardados em carros da corporação faziam a escolta do dinheiro munidos de fuzis. As sacolas e pastas onde o dinheiro era guardado seguiam para dois carros, um deles blindado. Um Gol branco acompanhava o grupo regularmente.
A testemunha reconheceu por foto apenas um PM, indetificado no depoimento como Otávio. Na denúncia, o MP afirma que Otávio Augusto Cavalcanti integrava o núcleo operacional do grupo ao lado de Claro Luiz Dantas da Silva, Luiz Henrique Dias do Carmo Ministério e Rita de Lima Netto Germello, que tinham vínculos formais com as ONGs contratadas no projeto. Eram eles que determinavam como seriam movimentados os valores desviados.
As investigações revelam ainda que no início os valores sacados eram inferiores a R$ 100 mil para não chamar a atenção do Banco Central. A estratégia causou transtornos à agência bancária. Segundo a testemunha, representantes das ONGs usadas no esquema eram tantos que chegavam a fazer filas nos balcões onde preenchiam as cartas de saques.
Em seguida, cada um seguia para outra fila, onde o núcleo operacional da quadrilha endossava os cheques, que já chegavam à agência nominativos às micro-ONGs. No verso de cada folha havia carimbo com os dados dos representantes legais das ONGs, que desconheciam o valor dos cheques emitidos. Essa mecânica, segundo a testemunha, provocava grande tumulto: “A agência ficava um inferno de tanta gente, já que o valor normalmente não passava de R$ 10 mil a R$ 20 mil”.
MUDANÇA DE AGÊNCIA
Segundo o MP, os responsáveis pelas contas, Ministério e Dantas da Silva, foram orientados a transferir os saques para uma agência no Centro, próximo à Praça Mauá, para acabar com os transtornos na unidade de Botafogo. O pedido não foi aceito. Os dois teriam decidido então aumentar o valor do total dos saques, que, posteriormente, saltaram para R$ 500 mil a até R$ 1 milhão por dia.
O dinheiro não ficava com os representantes das ONGs. Eles eram levados em Kombis para o escritório do grupo na Av. Rio Branco, onde entregavam o valor dos saques aos cabeças da quadrilha. Sobre PMs que fariam a segurança no transporte do banco até o escritório no Centro, a PM diz que só vai se pronunciar depois de ser comunicada oficialmente pelo MP. O comandante-geral da PM da época, coronel Hudson de Aguiar Miranda, não foi encontrado para falar sobre a denúncia.