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5/12/2007 01:34:00

Sem reação antes de tiros

Padre revela que se preparava para abrir a porta do carro quando criminosos dispararam e que só acelerou ao ver amiga baleada. Polícia acredita que bando teve a cobertura de outro veículo

Christina Nascimento e Paula Sarapu

Rio - Internado na Enfermaria do Hospital Miguel Couto, no Leblon, o padre Frank Luiz Franciscatto, 41 anos, revelou ontem que não reagiu à investida dos bandidos que culminou domingo com a morte da professora de Religião Vitória Lúcia Marques Kurrik, 55, em Botafogo. A amigos que foram visitá-lo, ele contou que ficou tão nervoso ao ser rendido, na Rua da Passagem, que não conseguiu obedecer de imediato à ordem de um dos criminosos para abrir a porta do carro e descer. A demora de segundos foi respondida com pelo menos três tiros de fuzil. Desesperado ao ver a amiga agonizando, só aí foi que acelerou e saiu pedindo ajuda a pedestres.

Na versão do pároco, o Santana Quantum que dirigia ficou fechado entre dois carros. Um bandido saiu do veículo da frente, que estava com o pisca-alerta ligado, desceu e anunciou o assalto. “O padre Frank disse que Vitória, ao ver a arma, gritou: ‘Não, pelo amor de Deus!’. Mesmo assim, o homem atirou. O padre, então, arrancou com a porta aberta. Ele disse que não reagiu antes”, contou a bibliotecária Lourde Tolhuizen, 57 anos, irmã da professora morta.

Muito abatido, o padre agradeceu as ligações e visitas que tem recebido — a maioria de desconhecidos. “Estou me recuperando. Tenho gratidão a toda manifestação de solidariedade. O carioca é acima de tudo um povo solidário”, afirmou ele, através de bilhete escrito por amiga.

A polícia investiga se o Celta branco que aparece nas imagens captadas pelo circuito de câmeras de um centro empresarial na Praia de Botafogo teria dado cobertura à ação. Os assaltantes carregavam as armas no Tempra de Magno de Oliveira de Paiva, 28 anos. Ele chegou a se apresentar à polícia como a primeira vítima do bando, mas foi reconhecido por uma testemunha, que o viu descer do carro armado com fuzil.

Magno teve a prisão temporária decretada por 30 dias pela juíza do plantão judiciário Regina Tereza Varges Rezende, como O DIA noticiou ontem. Ele responderá por latrocínio (roubo seguido de morte), formação de quadrilha e falsa comunicação de crime, já que registrou o roubo do carro na 12ª DP (Copacabana).

Magno negou ter participado da ação dos bandidos e disse que emprestou o carro a um entregador de farmácia, morador na Ladeira dos Tabajaras, em Copacabana. O acusado afirmou que comunicou o roubo quando soube que “o carro tinha descido cheio” (saído do morro com muitos bandidos). A testemunha afirmou, no entanto, que ele saiu do Tempra com um fuzil quando os bandidos renderam o taxista José Maria Teixeira.

“Troquei minha moto por este carro há 10 dias. Emprestei o Tempra a um trabalhador e só soube que o carro estava envolvido no caso pela TV. Estive na delegacia porque o pessoal comentou que o carro desceu cheio. O que ia fazer? Mas não estava lá e não queria que isso tudo tivesse acontecido”, afirmou Magno.

Gerente do tráfico no ‘bonde’

Um dos gerentes do tráfico do Morro Dona Marta, em Botafogo, Francisco Rafael Dias da Silva, o Mexicano, também estaria no ‘bonde’ que transportava o armamento da Ladeira dos Tabajaras, em Copacabana, para a favela. Segundo a polícia, Mexicano é braço-direito do chefe das bocas-de-fumo da Ladeira dos Tabajaras, Alexandre da Silva Inocente, o Merenda.

Informações recebidas pela polícia indicam que a mãe de Mexicano costumava circular no Tempra de Magno, que negou o fato. “Até tinha ouvido falar que a família desse Mexicano andava no carro, mas é tudo mentira”, afirmou ele.

Uma denúncia passada ontem para 12ª DP informa que Magno também participou do assalto à casa do cineasta Zelito Viana, pai do ator Marcos Palmeira, no Cosme Velho, em fevereiro do ano passado. O delegado da 10ª DP (Botafogo), Eduardo Baptista, disse que vai investigar as informações. Segundo ele, uma das hipóteses para explicar o transporte das armas é de que PMs estariam na favela de Copacabana na noite de domingo.

O delegado não descarta que os bandidos estivessem se organizando para retomar o controle do tráfico de drogas na Cruzada São Sebastião, no Leblon. Recentemente, por ordem de Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem, a comunidade foi invadida por traficantes da Rocinha, da facção Amigos dos Amigos (ADA).

HOMENAGEM INÉDITA

A catequista Vitória Lúcia Marques Kurrik vai ganhar um lugar especial na Igreja de Santa Teresinha de Jesus, em Botafogo, onde, por mais de 20 anos, dedicou-se à formação de crianças que se preparavam para a primeira comunhão. Padres da paróquia decidiram homenagear a professora de Religião, garantindo à família dela o direito de depositar os restos mortais de Vitória na capela do templo — local destinado exclusivamente aos padres.

“Geralmente, só os restos mortais de padres são colocados na capela, mas como ela estava em missão dada pela igreja quando foi morta e era uma pessoa muito querida, foi decidido que merece um lugarzinho especial”, disse o padre Ranilson Viana.

Para a coordenadora da equipe de Catequese da igreja, Neuza Soares, 70 anos, a imagem de Vitória que ficará na lembrança dos que conviveram com ela é a de uma pessoa muito feliz e amiga. “A característica principal da Vitória era a alegria. No sábado, quando fizemos um retiro com os alunos do segundo ano da Catequese, ela estava especialmente feliz. Ela estava sempre disposta a ajudar a todos e o fazia com a maior boa vontade”, lembrou a amiga, que conviveu com a professora durante 20 anos.

SOBREVIVENTE DA GUERRA

Foi difícil conter a emoção. No encontro do padre Frank Luiz Franciscatto com os pais, na tarde de ontem, no Hospital Miguel Couto, no Leblon, a sensação era de que eles se viam pela primeira vez. Choro, abraços e a certeza de que, agora, o religioso se tornou um sobrevivente da guerra urbana carioca.

“Agora que o vi, meu coração está tranqüilo. Ele podia estar morto, mas Deus é tão bom que colocou a sua mão e desviou as balas”, desabafou, aliviada, Cecília Rosa Stefanello Franscicatto, 64 anos, mãe do pároco. Ela e o marido, Artêmio Stasiak, 63 — padrasto de Frank —, passaram 27 horas na estrada para chegar ao Rio.

A viagem começou na cidade Frederico Westphalen (RS), onde a notícia do atentado mobilizou os moradores. São muitas as ligações de gaúchos para o hospital em busca de informações do estado de saúde do padre. Um grupo do Sul está organizando uma caravana para vir visitar o pároco, que deve ficar 30 dias internado.

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