Rio - Aos gritos de ‘caveira, caveira’, um grupo de policiais do Batalhão de Operações Especiais (Bope) estendeu ontem à tarde um enorme pano preto com a figura do símbolo da tropa de elite da PM no telhado de uma casa no alto da Vila Cruzeiro, no Complexo da Penha. A ‘cerimônia’ foi para marcar a ‘conquista’ da favela durante a ocupação, que completa hoje uma semana. Quinze pessoas foram mortas nos confrontos — a maioria ligada ao tráfico de drogas, segundo a Secretaria Estadual de Segurança.
“A bandeira significa que, diante do Bope, o bandido tem que correr enquanto está vivo. Que tem que sair antes de o Bope entrar, porque o Bope vem para fazer o enterro. Representa nossa dominação e ocupação. Expurgamos os bandidos que antes aqui habitavam. E a população está protegida. Há três dias não há confronto”, afirmou o tenente Dias, oficial que estava ontem no comando da tropa. Segundo ele, o Serviço Reservado do batalhão descobriu que os traficantes fugiram para o vizinho Complexo do Alemão e a Favela Cidade de Deus, em Jacarepaguá.
A bandeira foi colocada numa casa em frente ao Grupamento de Policiamento em Áreas Especiais (Gpae) do 16º BPM (Olaria), usado como base pelo Bope desde o começo da ocupação. O oficial explicou que o imóvel foi utilizado porque o mastro dentro do Gpae é destinado à bandeira do Brasil. Um Caveirão iria transportar um bambu até a parte alta da favela, mas o veículo enguiçou na Avenida Nossa Senhora da Penha.
Ontem, policiais usaram retroescavadeira para demolir barreiras instaladas por traficantes nos acessos às comunidades do Complexo da Penha. Na Favela da Merindiba, havia três tonéis com cimento presos ao chão. Da Estrada José Rucas, na Vila Cruzeiro, os PMs retiraram mais dois obstáculos.
De bares e janelas das casas, moradores acompanhavam a movimentação dos policiais e blindados. Desde terça-feira há diariamente 100 homens do Bope nas favelas da Penha. A ocupação é por tempo indeterminado. O grupo está alojado num quarto do Gpae com seis beliches e colchonetes.
Quase um ano de fogo cruzado
Há quase um ano, a Vila Cruzeiro é o principal cenário de confrontos entre traficantes e policiais militares no Rio. A guerra foi declarada em maio do ano passado, quando o soldado do Bope Wilson Santana, 28 anos, morreu baleado.
Com o fogo cruzado, quem mais sofre é a população. Fora o risco de bala perdida, os serviços públicos são afetados. Uma moradora contou ontem que não há luz em parte da comunidade desde as 16h de domingo. Ela acusou policiais do Bope de atirarem no transformador localizado próximo à Praça do Cruzeiro.
A Light informou que não pode expor seus funcionários em áreas de risco. Técnicos da companhia foram à Vila Cruzeiro no começo da tarde e prometeram retornar para restabelecer a energia se os moradores os aguardassem na rua. Outra acusação feita contra os PMs por pessoas que não quiseram se identificar foi de invasão de domicílio.