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16/08/2008 01:42:00

Sob o domínio do medo

Guerra de traficantes pelo controle de Vigário Geral e confronto entre bandidos e policiais deixa três mortos e cinco feridos. Escolas e estações de trem fecham e moradores abandonam suas casas

Paula Sarapu


Rio - Os rastros de sangue e as dezenas de cápsulas espalhadas pelas passarelas de acesso às Favelas de Vigário Geral e Parada de Lucas indicavam como foi a noite e a madrugada de pânico dos moradores das duas comunidades por causa de guerra entre facções rivais. Um taxista, morador da Cidade Alta, em Cordovil, morreu atingido por bala perdida, quando fechava a janela de casa. Quando a polícia ocupou as favelas, ontem de manhã, mais dois corpos foram encontrados. Nos confrontos, cinco pessoas foram feridas.

Apesar de ter montado cerco às comunidades desde o fim da tarde de quinta-feira, quando bando do Comando Vermelho atacou as favelas, a PM só entrou às 7h. Mas o clima de tensão não diminuiu. Muitas famílias abandonaram suas casas, levando sacolas com roupas e colchonetes. Quatro escolas e três creches da região fecharam, deixando 3.071 alunos sem aula.

A florista Ana Paula Souza, 35 anos, saiu de Vigário Geral com dois dos cinco filhos para ficar na casa de parentes. Chorando, ela disse que pediu outro dos filhos, que completou 17 anos quinta-feira, para que não voltasse para casa. “A gente trabalha tanto, faz tudo com sacrifício. “Gostaria de poder morar em um lugar onde não tivesse tanta violência e medo”, disse outra moradora. Quem atravessava a passarela, era revistado por policiais.

No início da manhã, em função do tiroteio entre PMs e bandidos, a Rua Bulhões Marcial ficou fechada por mais de duas horas. A circulação de trens também foi interrompida no ramal de Saracuruna e as composições só trafegaram entre a Penha e a Central do Brasil ao longo de boa parte da manhã. Para evitar risco de bala perdida, sete estações ficaram fechadas, com grande aglomeração de passageiros.

Dois helicópteros foram acionados para fazer buscas em maguezal nos fundos de Vigário Geral, onde bandidos estariam escondidos. Três blindados foram usados no patrulhamento. Moradores diziam que havia pelo menos quatro corpos espalhados pelas favelas, mas nenhum foi encontrado.

“Não entramos à noite para evitar risco aos moradores. Mas cercamos as comunidades para rechaçar os invasores, que não conseguiram tomar as favelas”, disse o comandante do Policiamento da Capital, coronel Marcus Jardim. O secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, admitiu que havia informações do ataque. “Sempre temos muita informaççao, o problema é que temos de ter critério para colocar um grande efetivo na rua, em determinados locais e horários. A gente fez uma contenção, que não pôde ser feita em toda a área, mas evitamos que o grupo que tentou entrar realmente tomasse o local”.

Fim de um sonho

Os planos do taxista Anderson Rodrigues Cardoso, 29 anos, foram interrompidos por uma bala perdida que entrou pela janela. Ele vivia na Cidade Alta, no terceiro andar de um edifício virado para Parada de Lucas. Os bandidos da comunidade em que morava reforçaram a invasão e de lá trocaram tiros com os rivais de Lucas.

Anderson trabalhava na cooperativa da Rodoviária Novo Rio e tinha acabado de chegar em casa. A mãe, Regina Lúcia, escutou o barulho do vidro se quebrando. “Ele foi encostar a janela e acabou baleado. Minha neta de 11 anos ainda tentou ajudá-lo. Agora minha vida vai ser um vazio enorme”, desabafou.

O taxista foi enterrado ontem à tarde no Cemitério de Irajá. A filha caçula Anne Beatriz, 7 anos, se despediu do pai mandando beijos para o caixão. Um colega da cooperativa fez um discurso emocionado: “Vivemos um estado de desgoverno, onde trabalhadores que estão construindo suas casas acabam morrendo, vítimas da violência”.

O estudante Jonatan Maia de França, 20 anos, foi baleado em casa na Rua São Bartolomeu, a 800 metros da favela. Atingido na cabeça, foi levado por amigos para o Hospital Getúlio Vargas, onde a irmã dele, Érica Silva, denunciou descaso: “Ele ficou duas horas lá, tomou paracetamol e foi liberado, mesmo com bala alojada na cabeça. Só fizeram um raio X e o mandaram para casa”. A família o levou a uma clínica particular, de onde deve ter alta hoje, mas não poderá retirar o projétil.

Luís Carlos de Andrade, 22 anos, e Mozart da Cruz Freitas, 24, que já tinham ficha na polícia, também ficaram feridos. Com passagem por tráfico, Luís deu nome falso no Hospital de Bonsucesso e acabou liberado. Mozart, já detido por homicídio, porte ilegal de arma e receptação, teve alta do Hospital Getúlio Vargas.

SEDE DO AFROREGGAE VIROU ESPÉCIE DE CASAMATA

As luzes das comunidades foram apagadas a tiros. Traficantes de Vigário Geral invadiram a nova sede do AfroReggae e aproveitaram o prédio de três andares em construção para ter ampla visão da comunidade. As portas foram arrombadas e as paredes ficaram com marcas de disparos. A tubulação de água estourou com as balas, inundando o térreo.

Coordenador executivo do AfroReggae, José Júnior acusou policiais de invadir o prédio. “Moradores contaram que os homens estavam com camisa da Polícia Civil. Os bandidos daqui (Vigário) a gente conhece e não foram eles. Isso foi um absurdo. A gente luta para tentar mudar essa situação e acontece uma coisa dessas”.

No confronto, uma granada caiu na casa de um morador, mas não explodiu. Perto dali, a van do comerciante A., 54 anos, ficou destruída. “Ouvi os tiros quebrando os vidros do meu carro. Não quero mais viver aqui”, disse. Na Rua Onze Unidos, ainda com uma bandeira de luto pela morte do traficante Jorge Willians Oliveira Bento, o Furica, havia um Citroën C3 com mais de 25 buracos de bala.
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