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31/01/2009 01:35:00

Sua doação virou cinza

Grande quantidade de roupas e objetos para ajudar desabrigados pelas chuvas foi incinerada em unidade usada pelos bombeiros em São Cristóvão.

Leslie Leitão


Rio - A chuva que no fim do ano passado castigou Santa Catarina, deixando 135 mortos e mais de 78 mil desabrigados, e o Norte Fluminense, onde outras 12 pessoas morreram e 32 mil perderam tudo, sensibilizaram o País e provocaram um mutirão de solidariedade. Boa parte dos donativos enviados de vários cantos do estado, porém, não teve como destino os mais necessitados: foi queimada no 21º Grupo de Artilharia de Campanha (GAC), em São Cristóvão.

TV O DIA: Veja o momento da destruição dos donativos

A unidade, que pertence ao Exército e está cedida aos bombeiros, ainda tem enorme quantidade de roupas e brinquedos doados para minimizar o sofrimento das vítimas. O material começou a ser guardado num grande galpão no fim de novembro, mas as condições de armazenamento são péssimas — as doações ficam expostas a pombos, cachorros e baratas.

Foto: Agência O Dia

 

 

 

 

 

 

 

 

Na tarde de quinta-feira e na manhã de sexta, cerca de 30 recrutas realizaram o trabalho: eles juntavam roupas e outros produtos — alguns ainda dentro de caixas fechadas — e formavam uma pilha para que se ateasse fogo, nos fundos da unidade, que fica na Avenida Bartolomeu de Gusmão 585.

As cenas foram registradas através de foto e vídeo feitos por celular e revelam o bom estado de alguns objetos, como sandálias femininas, tênis, colchonetes, agasalhos e brinquedos, além de uma banheira e de um carrinho de bebê azul e amarelo. Sem proteção adequada, o carrinho estava coberto de fezes de aves.

A ação de ontem teve início por volta das 11h e acabou exatamente às 12h15. De fora do quartel, era possível ver fumaça subindo. Uma das pilhas de roupas nem abrigada dentro do galpão estava. Este material foi a primeira remessa a ser queimada no pátio. Até este local os donativos eram transportados numa caminhonete vermelha dos Bombeiros, que fez duas viagens, e num outro carro da Defesa Civil Estadual, que fez outras duas viagens. Um carrinho do tipo ‘burrinho-sem-rabo’ também levou as roupas em uma ocasião até os fundos da unidade.

Enquanto as roupas queimavam, um menino de rua de 16 anos caminhava descalço e sem camisa, com uma garrafa plástica nas mãos. No portão ele parou, observou o fotógrafo e perguntou do que se tratava. Ao saber que eram roupas que estavam sendo queimadas, respondeu: “Que é isso, tio? E eu passando frio todo dia na rua...”.

Coronel diz que incinerou 200 quilos

Superintendente da Defesa Civil Estadual, coronel Djalma Souza Filho afirmou que um total de 200 quilos foi incinerado. A decisão foi tomada, segundo ele, porque o material era “inservível”. De acordo com o coronel, há uma lista com a descrição de todos os objetos que foram descartados. O oficial afirmou ainda que o procedimento é comum e feito após triagem: “Tem roupa rasgada e peça íntima usada”.

“É uma decisão que a gente tem que tomar. Incinerar o que está sujo, que não está em condição de uso, porque esse material pode estar contaminado”, afirmou o coronel. Ele admitiu, ainda, que o carrinho de bebê ficou exposto durante quatro dias e, por isso, tornou-se alvo de fezes de pombos.

“Como estamos utilizando um depósito em caráter emergencial, então não tinham todo o conhecimento da condição desse lugar. O que aconteceu? Como isso é um galpão aberto, à noite, no final da tarde, os pombos ficavam ali, mas a gente não sabia disso, por isso os pombos sujaram o carrinho. Nós tínhamos também uma cadeira de rodas, mas conseguimos limpar e guardar”, disse o oficial.

Furto de donativos chocou o País

Outro caso que chocou o País foi o furto de donativos em Santa Catarina, em dezembro do ano passado. Na ocasião, militares e voluntários foram flagrados desviando itens que seriam destinados às vítimas da chuva no estado. Atualmente, o número de desabrigados ou desalojados é menor do que na época do crime, chegando a 32.853 pessoas.

No estado catarinense, o inquérito que apurava o furto dos donativos terminou sem ninguém ser indiciado. Segundo o delegado que investigou o caso, Henrique Stodieck Neto, os voluntários suspeitos receberam autorização para retirar os recursos. O documento final foi enviado ao Ministério Público, que avaliará a situação. Caso haja uma discordância, o caso pode ser levado novamente à Justiça.

Já os militares do Exército foram afastados das atividades externas e estão respondendo a um inquérito policial-militar. O prazo para ouvir testemunhas está acabando e a decisão deve sair nos próximos dias.

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