Rio - O corpo do delegado titular da 20ª DP (Vila Isabel), Alcides Iantorno, 66 anos, foi enterrado no fim da manhã desta segunda-feira, no Cemitério Jardim da Saudade, em Sulacap, Zona Oeste do Rio. O clima entre as centenas de pessoas que participaram da cerimônia era de indignação e revolta. Entre as autoridades presentes estavam chefe de Polícia Civil, Gilberto Ribeiro, e o secretário de Segurança Pública do estado, José Mariano Beltrame.
Numa ação ousada, com execução típica de um pistoleiro profissional, Alcides Iantorno foi assassinado, na manhã de domingo, com um tiro na nuca. O crime aconteceu às 8h15, quando o policial entrava, desarmado, no supermercado Zona Sul da Avenida das Américas, no Recreio dos Bandeirantes. O atirador chegou, caminhou cerca de quatro metros e, com pistola calibre 380 quase encostada na cabeça de Iantorno, fez o disparo. Antes de sair, comemorou: deu quatro tiros para o alto. O episódio foi considerado pela Polícia Civil como um recado e uma afronta à instituição.
O chefe de Polícia Civil, Gilberto Ribeiro, descartou roubo e disse que a hipótese mais provável é de que o crime tenha sido cometido por milicianos. Essa é a linha de investigação mais forte. Ano passado, Iantorno estava à frente da 22ª DP (Penha). Sua equipe prendeu cinco PMs acusados de integrar milícia na Favela Kelson’s, na Penha. Foi apreendida uma lista com nomes de comerciantes que pagavam propina aos criminosos. A polícia também trabalha com a hipótese de Iantorno ter sido executado em retaliação ao fechamento de um bingo em Vila Isabel.
O assassinato do delegado foi testemunhado por funcionários e clientes e filmado por quatro câmeras do supermercado. Pelas imagens, a polícia sabe que o pistoleiro tinha entre 26 e 30 anos, vestia calça jeans, camisa pólo vermelha, usava boné verde e estava com mochila atravessada no peito. Ele abaixou a cabeça, dificultando a identificação.
Na maior parte do tempo, o assassino aparece de perfil no equipamento de segurança, o que leva a crer que o executor conhecia o sistema de monitoramento. O delegado Sérgio Caldas, chefe do Departamento de Polícia da Capital, deu ênfase à frieza do assassino: “O executor é alguém que tem contato com esse tipo de situação de estresse”. A filmagem revela ainda que, ao ser baleado, o delegado encolheu os ombros e tentou olhar para trás, supostamente tentando ver o rosto do assassino. As imagens estão sendo analisadas pela perícia.
“É um tiro contra a instituição. Soou como recado, mas não adianta matar ‘polícia’. Vamos montar força-tarefa e chegar aos executores”, garantiu Ricardo Martins, subchefe da Polícia Civil.
Ainda de acordo com a polícia, o assassino e um comparsa seguiram Iantorno num Palio prata, que ficou parado em frente ao mercado. O pistoleiro desceu do veículo quando o delegado chegou — de bermuda e chinelos — e o seguiu. Após o disparo, o bandido entrou no automóvel, que saiu em alta velocidade no sentido Zona Sul, virando à direita na Avenida Glaucio Gil. O Palio foi flagrado por câmeras da CET-Rio próximas ao local e também pode ter sido filmado em outros pontos. Policiais refizeram o trajeto dos assassinos.
Uma testemunha anotou a placa do carro, que é de Itaboraí. Há suspeitas de que a placa seja clonada. Na noite de domingo, veículo semelhante foi apreendido para perícia. Os donos prestaram depoimento e foram liberados.