
Rio - O tenente Vinícius Ghidetti de Moraes Andrade, acusado de comandar o grupo de militares que entregou três jovens do Morro da Providência aos traficantes rivais do Morro da Mineira, chorou muito ao ser interrogado pela Justiça Federal, na tarde desta quinta-feira. No depoimento, ele disse que tomou as decisões sozinho e que seus subordinados apenas obedeceram às suas ordens.
"Eu estava com medo quando falei essas coisas. Eu estava confuso, mas tudo o que aconteceu é minha responsabilidade", afirmou.
O tenente confirmou a versão que havia do depoimento prestado anteriormente à Polícia Civil de que a intenção era deixar os três jovens do morro da Providência nas imediações do morro da Mineira apenas para levarem um susto.
Ele disse que o encontro com os traficantes não foi previamente planejado. O militar negou que quisesse desobedecer às ordens do capitão Laerte, mas admitiu que errou. "Eu nunca iria desobedecer ordens do meu capitão. Mas, quando ele ordenou para soltá-los, eu quis dar um susto neles. Queria que eles ficassem com "cagaço"", afirmou.
Ainda segundo o militar, no trajeto de volta ao quartel, ele pediu que seus subordinados não fizessem comentários sobre o ocorrido. "Eu virei para trás e pedi para meus comandados ficarem em silêncio e que não comentassem nada. Eu tinha medo de ser punido pelo capitão."
Ao final do depoimento de duas horas e 10 minutos, o militar afirmou que, na sua opinião, o capitão Laerte não agiu de forma correta ao mandar soltar os três jovens que o teriam desatacado. Segundo ele, quando os levou ao quartel, o capitão deveria ter apurado se houve desacato. "Acho que ele não procedeu corretamente porque eu levei eles lá para constatar que houve desacato. O capitão mandou fazer vista grossa para esse tipo de coisa", disse.
Nesta quinta e sexta-feira, o juiz da 7ª Vara Federal Criminal, Marcelo Ferreira Gramado, e promotores do Ministério Público Federal vão ouvir o tenente Vinicius Ghidetti, os sargentos Leandro Maia Bueno, Bruno Eduardo de Fatima e Renato de Oliveira Alves, e os soldados Jose Ricardo Rodrigues de Araujo e Julio Almeida Ré. Nesta sexta, serão ouvidos os soldados Rafael Cunha da Costa Sá, Sidney de Oliveira Barros, Fabiano Eloi dos Santos, Samuel de Souza Oliveira e Eduardo Pereira de Oliveira.
Todos respondem por homicídio triplamente qualificado por uso de crueldade, motivo banal e sem chances de defesa para as vítimas.
Os militares são acusados de entregaremm no dia 24 de junho, a traficantes do Morro da Mineira três jovens moradores do Morro da Providência, que apareceram mortos em um lixão na Baixada Fluminense. Os traficantes que torturaram e assassinaram os jovens ainda não foram presos.
No fim do processo, se os réus não forem absolvidos pela Justiça, serão julgados pelo Tribunal Federal do Júri Popular.
A denúncia partiu de investigações da Polícia Civil, em inquérito enviado na semana anterior pela Justiça Estadual à Justiça Federal. Além de ratificarem o pedido de prisão preventiva dos 11 denunciados, os procuradores pediram à 7a Vara que requisitasse ao Ministério Público Militar uma cópia do Inquérito Militar, que também apura os crimes militares cometidos.
"Irresponsabilidade militar"
Na manhã desta quinta-feira, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, afirmou que foi um ato de irresponsabilidade a prisão dos três jovens pelo Exército no Morro da Providência, centro do Rio. “Quanto aos jovens, foi um ato de absoluta irresponsabilidade militar”.
Jobim acrescentou que já está sendo investigado o envolvimento dos militares com traficantes de droga. Ele também leu alguns trechos dos depoimentos tomados dos militares. Numa parte dos textos, um dos militares afirmou que entregaria os três rapazes com a justificativa de que eles haviam insultado a tropa.
O ministro disse ainda que ao entregar os jovens o tenente Vinícius Guidetti, suspeito de envolvimento na execução, afirmou aos traficantes: “Trouxe um presentinho para vocês”
"Presença nos militares no morro é legítima"
Já o ministro da Defesa, Nelson Jobim, afirmou na Câmara dos Deputados, em Brasília, que é competência do Exército cooperar com órgãos públicos na execução de obras de engenharia e que a presença de militares no Morro da Providência é legítima.
Em 14 de junho, três jovens do Morro da Providência foram assassinados depois de terem sido entregues por militares a traficantes. Parlamentares questionam a presença de tropas do Exército no local, onde há obras do projeto Cimento Social - que recebeu R$ 12 milhões do Ministério das Cidades por meio de emenda do senador Marcelo Crivella (PRB), que é candidato a prefeito do Rio de Janeiro. Os militares estariam dando segurança aos trabalhadores do projeto.
Na semana passada, a Justiça Federal determinou a retirada dos militares do morro. O governo federal recorreu e conseguiu que a Justiça mantivesse as tropas na rua das obras. Na terça-feira, porém, a Justiça Eleitoral determinou a paralisação das obras, alegando caráter eleitoral no projeto. Com isso, o ministro Nelson Jobim anunciou que o Exército também deixaria o morro.
Com informações do Terra