Daniela Dariano e Elcio Braga
Rio - Sabe em que as mudanças climáticas podem transformar você? A primeira imagem na sua cabeça é o desprendimento de imensos blocos de gelo na Antártica? Calma! Você ainda não achou a resposta, mas está esquentando. Lembrou que o nível do mar sobe três milímetros por ano? Ficou mais quente. Vieram de estalo secas, ventos violentos e a extinção de espécies animais e vegetais? Com tantos sinais, dá para arriscar: você pode virar um refugiado ambiental. E não estará só. A ONU prevê 200 milhões de deslocados pelo clima no mundo até 2040. No Brasil, 32 milhões de pessoas vivem em áreas que podem se tornar desérticas. O perigo rondará várias áreas do Rio de Janeiro. Se o nível do mar subir um metro e meio, até 2100 17 mil residências ficarão em áreas alagadas.
Mas, para muita gente, o inferno já chegou: o processo de desertificação do Noroeste Fluminense expulsou 200 mil pessoas nos últimos 20 anos; praias são engolidas na Costa do Sol; e a degradação ambiental nas baías de Sepetiba e de Guanabara fecha lojas e esvazia bairros. Bem-vindo ao planeta fogo.
O DIA começa hoje série sobre os refugiados ambientais. Um problema que vai tomar cada vez mais o nosso tempo. A simples debandada de uma região é parte da encrenca. O caldo entorna quando chegam a outra área, provocam desequilíbrio e disputam os escassos recursos.
O Rio conhece de perto o que está por vir. O Noroeste Fluminense era coberto, 250 anos atrás, pela Mata Atlântica. “Só restou 0,5% da floresta”, diz Arthur Soffiati, professor da Universidade Federal Fluminense. Sem proteção, o solo foi lavado pelas chuvas e perdeu os principais nutrientes. O sol forte racha o chão sem vegetação e o abre como terremoto, são as voçorocas. A última etapa do processo, a desertificação, ocorre quando a argila vira areia — processo ainda não iniciado.
A terra empobrecida expulsa os lavradores, que engrossaram as periferias de médias e grandes cidades. “Ocuparam encostas e margens de rios. O meio ambiente perde duas vezes”, atesta o futuro ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc.
Um punhado dos que já foram expulsos da terra tenta o caminho inverso. Em Itaperuna, o Incra considerou improdutiva a Fazenda São Domingos, com área de 1.697 hectares. Os donos tentam na Justiça se manter no local. Na porta, 90 famílias sem-terra aguardam a decisão desde 2004. Parte deles é de gente que deixara a lavoura por subempregos na cidade.
DA LAVOURA PARA A CONSTRUÇÃO CIVIL
Diniz de Souza, 46 anos, trabalhou com a enxada na lavoura até os 14, no Rio Grande do Norte. Trocou a roça pela construção civil. Com mulher, filho, nora e neto, espera a terra prometida. O filho trabalha como bóia-fria na colheita de tomate, das 5h às 18h, por R$ 17. “Quando acaba a safra, ele vende picolé. Isso enquanto a nossa terrinha não sai”, avisa ele, para muitos, um refugiado ambiental: deixou área empobrecida no Nordeste para buscar melhores condições na cidade.
“Existem os refugiados ambientais, mas não há definição nem previsão na legislação para compensar o dano ambiental”, observa o advogado Luiz Guilherme Samico Natalizi, especialista em gerenciamento de risco ambiental pela Feema.
O aumento do nível do mar entrou no debate. “Não é para construir dique agora. Ninguém investirá no que não se tem certeza. É preciso monitorar de forma sistemática”, aconselha o oceanógrafo Dieter Gustav Mühe. A encrenca se torna maior porque se desconhecem detalhes.
Nem todos falam a mesma língua quando o assunto é aquecimento. Para grupo de céticos, a mudança faz parte do perfil da Terra. Certeza só que a temperatura aumenta mais rápido. “Até 2000, o mar subia 2 mm por ano. Agora, são 3 mm”, lembra Haroldo Mattos Lemos, presidente do Instituto Brasil Pnuma (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente). A chapa está esquentando, mas a hora é de manter a cabeça fria.