Adriana Cruz e Andréa Uchôa
Rio - Principal testemunha da polícia sobre a máfia das vans em São Gonçalo, o motorista Ildefonso Teixeira de Abreu, de 43 anos, foi assassinado com 11 tiros — nove deles pelas costas e um na cabeça — na porta de casa, no bairro Jardim Catarina, em São Gonçalo, ontem, por volta das 10h. Segundo testemunhas, Ildefonso foi emboscado por dois homens em uma moto quando construía rampa de garagem na calçada de casa. Ele foi socorrido pelo filho, mas chegou morto ao Hospital de Manilha, em Itaboraí.
De acordo com o delegado titular da 74ª DP (Alcântara), Fábio Barucke, os principais suspeitos da execução são homens ligados ao vereador Édson da Silva Mota, o Mota da Copasa, apontado como chefe da máfia das vans no município.
Ildefonso era peça-chave do inquérito da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas e Inquéritos Especiais (Draco-IE), que resultou na Operação Coopercrime e na denúncia do Ministério Público, aceita pela Justiça, contra 61 acusados por formação de quadrilha armada. “Já estou convencido de que a morte foi tramada pelo grupo do Mota. Eles foram muito prejudicados por causa das informações fornecidas pelo Ildefonso”, disse Barucke.
O delegado vai levar à Justiça o registro de ocorrência do assassinato e pedir novas prisões. “O objetivo é conseguir a prisão preventiva de 42 pessoas que foram presas pela Draco por envolvimento com a máfia das vans. Vou analisar se isso também pode ser estendido a outros 19, que respondem a processo na Justiça. Eles são os únicos interessados nesta morte” justificou Barucke.
FAMÍLIA PRESERVADA DE AMEAÇAS
A morte de Ildefonso pegou a família de surpresa. “Em casa, ele nunca falou nada sobre ameaças e as denúncias que fazia. Acho que isso era para nos preservar. Se soubesse, teria ido embora”, Vilma Pereira da Silva Abreu, de 46 anos, mulher do motorista.
Segundo o delegado da 74ª DP, apesar de estar colaborando com as investigações da polícia, Ildefonso não poderia ser colocado no programa de proteção à testemunha. “Ele também era réu em um processo que envolvia a máfia das vans, por isso, o programa não o aceitou”, explicou Barucke.
Em entrevista a O DIA em novembro, Ildefonso chegou a afirmar que sabia que iria morrer. Na ocasião, ele estava acompanhado de Uilton Miranda, que agora é o único sobrevivente de um grupo de dez motoristas que faziam oposição a Mota da Copasa em São Gonçalo, desde 1999. Ildefonso afirmou que o vereador teria tomado a cooperativa dele, que prosperava na região naquela época.
Bando investigado por 50 homicídios
Deflagrada em duas partes há um mês, a operação Coopercrime cumpriu 42 mandados de prisão — cinco acusados foram soltos e três continuam foragidos. A primeira etapa das prisões aconteceu no início de novembro. Na ocasião, 34 pessoas foram detidas — sendo que nove já estavam encarceradas por outros crimes, entre elas o vereador de São Gonçalo Edson da Silva Mota, o Mota da Copasa, apontado como chefe do bando, na cadeia desde agosto.
Segundo a polícia, na guerra pelo controle das vans, há o rastro de 50 mortes em São Gonçalo e outras seis cidades. “As investigações não serão freadas”, afirmou o chefe do setor de investigação da Draco-IE, Jorge Gerhard.
Para o delegado da 74ª DP (Alcântara), Fábio Barucke, a morte de Ildefonso foi para impedir que ele prestasse depoimento na Justiça contra o grupo. “A meta dos criminosos era ter uma testemunha a menos. Mas isso foi um tiro no pé porque serve como prova da ação do bando”, disse Barucke.