Moradores da Providência acusam soldados do Exército pelo desaparecimento de três jovens
Rio - Manifestação de moradores do Morro da Providência, no Centro, em represália ao desaparecimento de três jovens, causou pânico na região durante todo o dia de ontem. Oito ônibus foram saqueados e apedrejados nas imediações da comunidade, que acusa soldados do Exército de ser responsáveis pelo sumiço dos rapazes. Um microônibus foi incendiado na Rua da América, no Santo Cristo. Os passageiros foram salvos por policiais, que conseguiram retirar todos pela janela traseira. Ninguém ficou ferido.
Soldados deram tiros para o alto para tentar dispersar a multidão, mas minutos depois do incidente, um ônibus da linha 170 (Rodoviária-Central) foi apedrejado na saída do Túnel João Ricardo, próximo à Central do Brasil. Cerca de 30 pessoas estavam no veículo no momento do ataque. Suspeito de participação, Eriton Santos de Oliveira, 23 anos, foi preso pela Polícia Militar.
Na 6ª DP (Cidade Nova), onde foi prestar depoimento, Eriton negou ter participado da confusão, mas disse ser primo de Marcos Paulo da Silva Correia, 17 anos, e amigo de Wellington Gonzaga Costa, 19, mais conhecido como Negão, e de David Wilson Florêncio da Silva, 24, os três desaparecidos. “Eu estava lá para acalmar meus vizinhos”, defendeu-se.
Moradores acusam os militares de terem levado os rapazes para o Morro da Mineira, controlado por facção rival à que atua na Providência. Segundo relatos, os três voltavam de baile funk na manhã de ontem quando foram abordados por soldados. Um deles teria reagido e os três teriam sido agredidos pelos soldados. Apesar de os corpos não terem sido encontrados, parentes e amigos de Marcos Paulo, Wellington e David acreditam que eles tenham sido mortos.
Em nota divulgada ontem à noite, o Comando Militar do Leste confirmou que as tropas do Exército que fazem a segurança no local, por conta da Operação Cimento Social, efetuaram a detenção de três suspeitos próximo à Praça Américo Brum. Os rapazes, que teriam desacatado os oficiais, foram encaminhados ao comandante do grupo que atua na região e, em seguida, liberados na Avenida Presidente Vargas, no Centro. Depois disso, os militares não voltaram a ter contato com os jovens.
Favela ocupada pelo Exército há seis meses
Cerca de 200 homens do Exército ocupam o Morro da Providência desde dezembro do ano passado, quando começou a Operação Cimento Social, cujo objetivo é reformar 780 casas da favela. Mas a presença dos militares não foi suficiente para levar paz à região.
Além de tiroteios dos traficantes locais com bandidos de comunidades próximas e com policiais, bomba caseira foi jogada contra os soldados em março. Ontem à tarde, houve confronto na Praça Américo Brum.
Presidente da Comissão Permanente dos Direitos da Criança e do Adolescente, a vereadora Liliam Sá (PR) foi chamada por parentes e amigos dos jovens e presenciou o tumulto. Revoltados, moradores jogaram pedras e garrafas nos militares, que revidaram.
“Foi terrível, era muito tiro”, lembra ela, que sofreu queimaduras no rosto por causa de spray de pimenta. Segundo a vereadora, apenas os militares portavam armas de fogo. “Os moradores só querem que os soldados que levaram os rapazes sejam investigados”, explica. No fim da tarde, a PM foi chamada para reforçar a segurança.