
Rio - As investigações da Polícia Federal indicam que, ao longo dos anos em que Álvaro Lins esteve no comando da Polícia Civil, estabeleceu-se um loteamento de delegacias, comandado com rigor. Delegados que se recusavam a repassar dinheiro para a chefia eram punidos. Uma das mais cobiçadas unidades era a Delegacia de Meio Ambiente (DPMA), como revelam gravações telefônicas feitas com autorização da Justiça, em 2006.
Num dos diálogos, Lins, já em campanha para deputado estadual, conversa com Ricardo Hallak, seu sucessor. O assunto é o fato de o delegado titular da especializada na época, Rafael Menezes, não estar mandando, mensalmente, R$ 25 mil para o gabinete da Chefia de Polícia Civil. “Tô f. o pessoal da Meio Ambiente (...) igual você fazia. Tirei viatura, tô transferindo todos os policiais. Só vai ficar ele e meia dúzia de gatos pingados (...). Tô te imitando, meu mestre”, afirma Hallak.
Álvaro Lins responde em tom sarcástico: “Isso, tira as viaturas mesmo. Deixa eles pedalando de bicicleta. Já fiz muito isso. Não quer participar, tudo bem. Mas fica sem nada”.
No mesmo telefonema, Hallak pede que Álvaro Lins leve a questão ao ex-governador Anthony Garotinho, pedindo que o delegado fosse derrubado da DPMA: “Ele (Rafael Menezes) mandou ofício para a CGU e foi dedurar o esquema para o Precioso (Roberto Precioso, então secretário de Segurança)”.
Na época, o delegado da DPMA chegou a enviar um ofício à Corregedoria Geral Unificada (CGU), contando o drama que tinha vivido com a perda de viaturas e policiais, mesmo sendo o líder do ranking de produtividade entre as especializadas. O então corregedor, José Vercillo, além de não apurar as denúncias, instaurou inquérito administrativo contra Menezes por quebra de hierarquia. Tudo isso consta no inquérito da PF.
Na seqüência do plano para trocar a DPMA, Lins liga para Garotinho, a quem chama de chefe, e pede que ele converse com a governadora Rosinha Garotinho para resolver a questão porque “está dando a maior m.”. Garotinho demonstra irritação ao saber que sua ordem de trocar o comando da DPMA e da Delegacia Fazendária não havia sido cumprida. Dias depois, Menezes é transferido para a 40ª DP (Honório Gurgel). E a DPMA recebe de volta três viaturas e oito agentes.
CASA DE TRÊS ANDARES E PICAPE
O inspetor Alcides Campos Sodré foi preso ontem, às 6h, em sua casa, uma mansão de três andares dentro do Condomínio Vivendas Bandeirantes, na Taquara, Jacarepaguá. Quando os agentes federais cercaram a residência e tocaram a campainha, o policial chegou à varanda do segundo andar e foi avisado que havia um mandado de prisão expedido pela Justiça contra ele. “Tudo bem. Vou descer”, afirmou.
O inspetor, que no condomínio é conhecido como Alcides da Federal, saiu de casa e foi colocado em uma viatura. O carro de Alcides, a picape Mitsubishi prata KZO-0356, ficou na porta do imóvel. Na casa, foram apreendidos US$ 10 mil. Vizinhos, surpresos, acompanharam a movimentação.
Uma das mais luxuosas do condomínio, a residência de Alcides tem cerca de 210 metros quadrados de área construída, que inclui terraço e churrasqueira. Segundo um corretor consultado por O DIA, o imóvel vale pelo menos R$ 380 mil — esse valor pode ser até dez vezes maior, dependendo do que há no interior da casa. O aluguel de um imóvel no condomínio chega a R$ 1.400. Residências mais simples podem ser alugadas por R$ 700.
Nas casas de outros acusados de envolvimento no esquema, os agentes federais apreenderam documentos, computadores e telefones celulares.
Delegacia dos olhos do chefe
O relatório da Polícia Federal revela que a DPMA “foi considerada pelo grupo uma das delegacias mais estratégicas e rentáveis, sobretudo por lhe competir apurar crimes praticados por empresas ligadas aos ramos de combustível e construção civil, que realizavam obras irregulares e grilagem de terra na Barra da Tijuca, Jacarepaguá e adjacências”.
A denúncia fala ainda sobre uma espécie de “mensalão” da segurança pública: “Essas empresas, chamadas de colaboradoras, pagariam propinas mensais (mensalão) ao grupo em troca de apoio policial”.
O trabalho da PF mostra também que um outro ‘mensalão’ chegava às delegacias e que parte dele era repassada à Chefia de Polícia Civil. Esses valores eram pagos pelos principais líderes da máfia dos caça-níqueis em qualquer área da cidade.
Alguns contraventores são citados na investigação. O primeiro é Rogério Andrade. Ele passou anos foragido e, segundo a PF — que o prendeu em 2006 —, contou com a ajuda de Álvaro Lins e seu grupo, os “inhos”: Fabinho, Jorginho e Helinho. A PF afirma que eles arrendaram as máquinas de caça-níqueis de Jacarepaguá e repassavam parte do dinheiro para Rogério Andrade.
A PF revela ainda que os “inhos” combatiam Fernando Iggnácio, rival de Rogério. Os dois estão presos. Os agentes seriam responsáveis por nomeação de delegados e recolheriam o dinheiro de cada delegacia. Com a entrada de Hallak, o esquema passou a ser coordenado por Alcides Sodré, de acordo com a investigação.
Reportagens de Adriana Cruz, Andréia Lopes, Bartolomeu Brito, Christina Nascimento, Francisco Édson Alves, João Antonio Barros, Leslie Leitão, Mahomed Saigg, Márcia Brasil, Maria Mazzei, Michel Alecrim, Ricardo Villa Verde, Thiago Prado e Vania Cunha