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28/4/2008 01:34:00

Tráfico recruta jovens de classe média na Zona Sul

Para espalhar os tentáculos pela Zona Sul, bando do Chapéu Mangueira montou esquema de ‘delivery’ usando moradores

Leslie Leitão e Paula Sarapu

Entregador conversa com bandidos armados até com granadas no Chapéu Mangueira. Foto: Marcelo Regua / Agência O DiaRio - Quarta-feira, 9 de abril. Morro e asfalto estão, mais uma vez, unidos. São 21h37 quando um dos ‘vapores’ da boca-de-fumo sai debaixo de um telhado de amianto, onde todos estão reunidos. Ele desce a escadaria e, dois minutos depois, já está na portaria de um edifício na Rua Gustavo Sampaio. Paulistinha, como é chamado, faz um aceno para o porteiro, que abre a porta prontamente. Paulistinha está trabalhando. E boa parte do Leme conhece seu ramo: o ‘delivery’ (entrega). De drogas.

 Fotos de traficante batendo em usuário no Chapéu Mangueira
 Desfile de marginais a poucos metros do asfalto. Veja fotos

O ‘delivery’ de entorpecentes, desta vez, tem um componente que o distingue dos que já foram desmanchados pela polícia: os traficantes conseguiram montar uma rede de relacionamentos por meio da qual é fácil recrutar revendedores entre jovens de classe média da Zona Sul. Contam com o medo que a maioria deles têm de subir os morros para terem sucesso.

O morador da cobertura do prédio de classe média da Gustavo Sampaio é o caso típico do usuário que não quer se aventurar pelas favelas, onde soldados do tráfico guardam bocas-de-fumo com armamento pesado. Como ele, há outros usuários que se tornam “esticas”, isto é, revendedores para outros jovens do “asfalto”.

Depois que a campainha toca, em quatro minutos e 41 segundos o entregador já está saindo do elevador de volta para a favela. O esquema de Paulistinha não é o único tentáculo do tráfico no asfalto. O inquérito 3805/06, da 12ª DP (Hilário de Gouveia), indica, por exemplo, que um taxista do Leme era homem de confiança do traficante Jony Paulo Gomes de Oliveira, que está preso.

O ponto de motos em frente à Ladeira Ary Barroso é outro alvo da investigação. Três mototaxistas, conhecidos como Bafo, Pagodinho e Nandinho, seriam responsáveis pela entrega de drogas, o chamado ‘mototráfico’.

A baderna no local — como rapazes que gritam palavrões e deitam sobre os carros dos moradores — é motivo de queixas na vizinhança. Mas a solução é ir embora. “Tive de me mudar dali. É um antro”, reclama um personal trainer da Zona Sul.

GUARDADOR NA BOCA

Quiosques da orla do Leme e duas barracas na areia da praia também foram alvo de investigação da Polícia Civil. Nelas, traficantes estariam fazendo as chamados ‘esticas’ (tráfico fora da favela). Também ficaram na mira da polícia os guardadores de carro. Muitos, inclusive os do sistema Vaga Certa da Prefeitura do Rio, são indiciados por tráfico de drogas.

No dia 3, em flagrante registrado por O DIA, um homem com colete do Vaga Certa aparece comprando drogas na primeira boca-de-fumo da escadaria.

Kombis pagam taxas ao tráfico para circular no Leme. O ponto, na esquina das ruas Gustavo Sampaio com Anchieta, tem até ‘fiscais’. “Todos sabem que a segurança de padarias e farmácias é garantida pelos traficantes”, diz um morador. A convivência forçada com o comércio e os moradores da região é tão próxima que O DIA flagrou o entregador de uma confeitaria, ainda com uma encomenda nas mãos, conversando com bandidos.

GRAVAÇÃO

O estudante P. diz que vai chegar mais tarde. O pai reclama, mas encerra a conversa pedindo um ‘baseado’ (cigarro de maconha). Em outra ligação, P. avisa à mãe, X., que está na delegacia e ela diz que vai mandá-lo embora de casa.

P.: E aí? Fala, pai.
Pai: Pô, só me liga pra pedir dinheiro, cara? Eu não sou caixa eletrônico, não.

P.: Eu sei, pô.
Pai: De vez em quando eu olho pra tua foto, quando eu tô com saudade, porque eu não te vejo.

P.: Aôôô, pára de caôzinho também. Só ontem que eu não te liguei.
P.: A minha mãe tá aí?
Fala que eu vou ficar até umas onze e meia (23h30).
Pai: Você tem aula nove e meia da manhã.
P.: Mas eu acordo.
Pai: Depois tu vai me dar aquele fino (baseado de maconha)? Tu vai ter que me arrumar aquele fino.

X.: O que você tava fazendo, garoto?
P.: Não, mãe, eu tinha comprado (baseado) pra ‘mim’ sair depois.

X.: Você vai acabar na DPCA, meu amigo.
P.: Eu tô aqui na 12ª (DP).

X.: Cansei de dizer pra você pra vir pra casa. Parece que eu tava adivinhando. Você não sossega. Vou te mandar embora. Vou te mandar pra Minas (Gerais). É isso que você quer?

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