Rio - Um dia depois da operação no Complexo do Alemão, que deixou um policial morto, cinco feridos e dois moradores baleados, traficantes da favela descobriram que sofreram uma grande perda. E não foi preciso nenhum confronto. Responsável por fornecer mais de uma tonelada de cocaína por mês nas favelas cariocas, movimentando cerca de R$ 10 milhões, o ‘empresário do tráfico’ Gilberto Vieira Alves, o Gilberto Cabeção, foi apresentado nesta quinta-feira, pela Polícia Civil depois de ser preso por agentes da 82ª DP (Maricá), terça-feira à noite, em uma boate no Centro do Rio.
A droga vinha da Bolívia em pequenos aviões, passava por Mato Grosso do Sul e seguia até São Paulo. Só para o Alemão, Gilberto remetia 100 quilos semanais. Tal movimentação fez com que bandidos ainda articulassem plano para resgatá-lo da delegacia de Maricá. A trama, descoberta pela polícia de Campinas, foi comunicada à Delegacia Anti-Seqüestro (DAS).
Segundo o informe, grupo ligado ao Primeiro Comando da Capital (PCC) no Rio estava com um Corolla pronto para fazer o ataque, por volta das 11h30. Antes disso, porém, um telefonema causou estranheza à delegada Roberta Carvalho. Um homem se dizia da Polinter e perguntava o horário da transferência do preso. “Depois disso, decidimos transferi-lo na hora”, contou.
As investigações duraram mais de dois meses. Ao ser preso, Gilberto apresentou documentos com nome falso. Paulista, ele veio ao Rio tratar de uma dívida no Alemão, com quem tinha fechado negócio. Uma mensagem de texto em seu celular recebida às 6h35 de quarta-feira, quando já estava preso, falava sobre a guerra na comunidade, e a morte de Antônio de Souza Ferreira, o Tota, com quem havia negociado: “Fique tranqüilo que assim que as coisas ‘acalmar’ vou resolver o dinheiro. As coisas ‘tava’ onde ‘tá’ esse tumulto todo. Vou resolver. Quando fui buscar o dinheiro, ‘tava’ esse problema”. Na continuação, o intermediário diz: “Ontem, o amigo foi lá e houve um problema grave com a pessoa que deixei o negócio. Leia os jornais. Deixa as coisas esfriarem que volto lá”.
Milionário, Gilberto tem concessionárias de carros na Baixada Fluminense e, em Goiás, é dono de postos de gasolina. “As empresas são usadas para lavar dinheiro do tráfico”, disse a delegada. Contra ele, há mandado de prisão por tráfico na 2ª Vara de Itapecerica da Serra (SP). O irmão dele, Paulo, foi preso numa fazenda com 900 quilos de cocaína. Em 2006, Gilberto foi preso em Itatiaia pela Polícia Rodoviária Federal com 17 quilos de cocaína, mas obteve a liberdade.
Investigações indicam ainda que ele abastecia ainda o Morro do Dendê, na Ilha, da facção Terceiro Comando Puro (TCP), e o Complexo de São Carlos, da Amigos dos Amigos (ADA). Além do Rio, ele distribui drogas para Mato Grosso, Goiás, São Paulo e Brasília
Sobre a morte de Tota, policiais de três delegacias descobriram que bandido conhecido como Mister M liderou a caçada a Tota, ex-chefão do Alemão, depois que o carro em que estava foi atingido por granada. Mesmo ferido, Tota se escondeu numa casa, mas foi capturado e morto.
Suspeito é preso no Hospital do Andaraí
Policiais da 20ª DP (Vila Isabel) prenderam ontem de manhã um suspeito de participar da guerra no Alemão. Ferido, Aldecir José da Silva Filho, 22 anos, procurou socorro no Hospital do Andaraí, mas foi preso. De tarde, ele foi reconhecido por agentes da Delegacia de Roubos e Furtos de Automóveis (DRFA) que participaram do confronto na Nova Brasília, que matou o policial Luiz Melo e deixou quatro feridos.
Ontem não houve operação no Alemão. Para tentar prender traficantes da quadrilha, o Batalhão de Operações Especiais (Bope) foi à Vila Cruzeiro, na Penha. Houve tiroteio, mas ninguém se feriu. Na chegada dos PMs, bandidos ironizavam no rádio. “Vão enguiçar de novo”, referindo-se ao novo blindado. Depois, outro alertou: “Tem muita polícia subindo”. E um comparsa respondeu: “Tá cheio de bandido aí, fica tranqüilo”.
Internado no Hospital Getúlio Vargas, o policial Alexandre Marchon Gomes, atingido por um tiro na cabeça, continua em estado gravíssimo.
Homenagens no adeus ao policial morto
“Seja policial civil ou militar, foi mais um que morreu exercendo sua vocação. Fez um trabalho fantástico e merece o nosso reconhecimento”. A declaração do secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, desfez as especulações sobre a lotação do soldado PM Luiz Cláudio Melo, morto em apoio à Delegacia de Repressão à Armas e Explosivos (Drae) na guerra no Alemão. E fez com que policiais civis comparecessem em peso ao enterro, ontem à tarde, no Cemitério de Inhaúma.
Melo não recebeu honras militares nem teve o funeral pago pela PM. “Ele não estava de serviço pela PM. Existem normas que nem o comando-geral pode fugir”, explicou o comandante-geral, Gilson Pitta. Houve comentários de que coronéis compareceram por determinação de Beltrame.
Policiais civis fizeram homenagens por conta própria. O enterro foi pago pelos amigos da Drae, à qual Melo ajudou por quatro anos. Aplausos, salva de tiros e chuva de pétalas de rosas caíram do helicóptero Águia. Agentes e delegados choraram abraçados. No fim, 400 vozes cantaram o Hino do Flamengo, paixão de Melo.
Horas antes, no velório, Karin, a filha de 9 anos, se despediu do pai, que não voltou para buscá-la, como prometera ao telefone antes de ser baleado. Ela recitou versos que escreveu e colocou sobre o caixão a faixa do clube. “Eram muito ligados, iam aos estádios. Ela está arrasada”, disse uma prima.
Tenente-coronel Carlos Milagres, comandante do Batalhão de Choque, disse que o inquérito que apura a atuação de Melo no Alemão foi avocado pelo Quartel General. O delegado Carlos Oliveira afirmou que a família receberá pensão. Ele suspeita que o tiro que matou Melo pode ter sido de precisão.