Ação reúne 350 policiais civis e Guarda Municipal para prender 10 supostos integrantes de máfias da Zona Oeste
Adriana Cruz
Rio - A Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas e Inquéritos Especiais (Draco-IE) deflagrou ontem pela manhã, na Zona Oeste, a maior ofensiva contra milícias já reaizada no estado. Batizada de Operação Latifúndio, a ação teve como principal alvo o vereador Jerônimo Guimarães Filho, o Jerominho (PMDB), preso às 10h. Ele é acusado de chefiar, com o irmão, o deputado estadual Natalino José Guimarães (DEM), a ‘Liga da Justiça’ — grupo que demarca território com o símbolo do personagem Batman.
Os irmãos e outros nove acusados foram denunciados pelo Ministério Público por formação de quadrilha e bando armado. Por ser deputado, Natalino responderá em liberdade.
Durante oito meses, as investigações revelaram que o grupo estava envolvido em homicídios, tentativas de homicídios, ameaças, lesão corporal, segurança clandestina e principalmente com a máfia das vans. “Mapeamos todos os registros de ocorrência e, a maioria de transporte alternativo. Temos um volume gigantesco de informes do Disque-Denúncia e registros de ocorrências”, afirmou o titular da Draco, Claudio Ferraz.
Segundo Ferraz, o esquema de Jerominho, associado a policiais, funciona há oito anos. A maioria das mortes está ligada à disputa de poder com o ex-policial civil Josimar José da Silva, o Mazinho, foragido da Justiça e acusado de homicídio.
CHOQUE DE ORDEM
Com o apoio de 400 policiais e da Guarda Municipal, que em menos de uma semana promoveram ainda em Campo Grande a ação ‘Choque de Ordem’, os agentes começaram a cumprir os 10 mandados de prisão por volta das 8h. Até a noite, além de Jerominho, tinha sido preso o PM Júlio Cesar Oliveira Santos, o Julinho Tiroteiro. Seis acusados continuavam foragidos, entre eles, o PM reformado Luciano Guinâncio Guimarães, filho de Jerominho. Segundo a Secretaria de Segurança, ontem duas pessoas foram presas por porte ilegal de armas e foram apreendidos 60 kombis e 20 carros. A polícia estourou uma carvoaria, três locadoras de vídeo e duas centrais clandestinas de tv a cabo, gatonet — uma delas na Associação de Moradores de Jardim dos Palmares, em frente a um posto da PM. O prédio é do Instituto de Previdência do Estado do Rio de Janeiro.
“Talvez tenhamos chegado o ponto mais crítico da operação. Tivemos contribuição da Polícia Federal e do Ministério Público”, disse o secretário de Segurança, José Mariano Beltrame. As prisões foram decretadas, sábado, pela desembargadora Mônica Di Piero. Dois policiais já estavam presos.
Vereadores evitam falar de milicianos
A prisão de Jerominho provocou reações diversas no meio político. Na Câmara Municipal, os vereadores evitaram falar do assunto. Também preso recentemente por suspeita de integrar milícia e participar do assassinato do inspetor Félix dos Santos Tostes, Nadinho de Rio das Pedras (DEM) participou das sessões de ontem, mas não se manifestou sobre a prisão do colega e aliado.
O único a dar declarações sobre o assunto foi Stephan Nercessian (PPS). “Para mim, está cheio de criminoso aqui (na Câmara) e no Executivo”, acusou.
Por e-mail, o prefeito Cesar Maia se disse surpreso com a prisão de Jerominho. Ele minimizou a participação de políticos ligados a milícias no quadro eleitoral do município. “No máximo, estaremos falando em 5% do legislativo”, escreveu.
O presidente da Assembléia Legislativa, Jorge Picciani (PMDB), disse que a Mesa Diretora primeiro deve receber a documentação relativa ao caso de Natalino (DEM) antes de fazer qualquer manifestação.
Ameaças para calar testemunhas
Durante as investigações, o que mais chamou a atenção dos agentes da Draco era o fato de que testemunhas acusavam o grupo de Jerominho de homicídios, mas logo depois voltavam atrás. Geralmente, no início, elas reconheciam em delegacias até Luciano, filho de Jerominho, e outros integrantes como autores de crimes. Porém, pouco tempo depois, o grupo era inocentado. Para os agentes, o recuo das testemunhas seria em função de ameaças de morte.
Segundo a polícia, até o armamento do grupo era demarcado. Em operação recente da Polícia Civil foi apreendido um fuzil com símbolo do Batman. Nem a polícia escapou de represálias de grupos ligados a milícias em Campo Grande. Com o apoio da Polícia Federal, foi descoberto um plano para matar um delegado e outras ameaças contra outro delegado e três inspetores. Isso gerou a primeira operação “Choque de Ordem”, em Campo Grande, sábado.
Na ocasião, 400 policiais participaram da ação. Dez pessoas foram presas, apreendidas 80 kombis, nove centrais clandestinas de TV a cabo fechadas, 600 quilos de fios de cobre e 11 caça-níqueis recolhidos, interditadas fábrica de DVDs e CDs piratas e posto de gasolina. Também foram apreendidos 150 galos de briga e realizados sete flagrantes de porte de armas.
‘NÓS TRABALHAMOS NA LEGALIDADE’
Num Citroën Xsara prata com o símbolo do Batman — usado por Jerominho e Natalino na última campanha —, o vereador chegou tranqüilo à 35ª DP (Campo Grande), por volta das 10h. O principal objetivo de Jerominho era registrar queixa de abuso de autoridade contra o titular da Draco, Claudio Ferraz. A maior reclamação do vereador era de que a polícia tinha ido à casa de seu filho, Luciano. O vereador, que entrou pela porta da frente da delegacia, acabou saindo preso pelos fundos do prédio.
Na Draco, Jerominho foi taxativo: “Sustentam que combato o tráfico, esse negócio de milícia. Defendo a população. Não roubo merenda nem remédio. Isso é coisa dos meus adversário”, afirmou Jerominho.
À tarde, com um forte abraço e um sinal de positivo, Jerominho se despediu do irmão na Polinter, no Centro, e foi para seu reduto, em Campo Grande. Lá ficou três horas na carceragem da Polinter. Só à noite Jerominho foi levado para Neves, em São Gonçalo.
Natalino atribuiu as acusações a inimigos políticos e disse que o vereador está “firme como uma rocha”. Ele explicou as acusações de combater o tráfico e pertencer a milícias. “Como policiais civis, temos obrigação de intervir. Mas trabalhamos na legalidade”, disse ele, que propôs anteprojeto na Alerj para criar polícias comunitárias — como noticiou a coluna ‘Informe do Dia’. A proposta, na visão de investigadores, seria a oficialização das milícias. Ao saber do mandado de prisão contra Jerominho — que estava pescando em Angra dos Reis — Natalino ligou para avisá-lo. A filha de Jerominho levou remédios para hipertensão e diabetes.