O fenômeno do MP3 player, liderado pelo iPod, traz de volta a discussão sobre os riscos para a audição dos usuários, que rondou a febre do walkman nos anos 80. Agora, muitos temem que a união entre maior qualidade do som e as dezenas de gigabytes de músicas no computador possa agravar os efeitos nocivos aos ouvidos dos usuários. "A qualidade do som é melhor, mas a intensidade (potência) do som é a mesma. Então, o risco é o mesmo", garante o otorrinolaringologista José Jarjura Jorge, professor titular da Faculdade de Medicina da PUC-SP.
Outros especialistas alertam sobre o perigo do uso prolongado dos MP3 players. Especialmente se o usuário gostar de ouvir música em alto volume. Nesse caso, rock e rap estão na lista dos sons mais "perigosos" à audição, ao contrário do jazz e da música clássica. Pete Townshend, guitarrista do The Who, que o diga (leia na página 3).
A empresária Ana Lucia Timm, 44, mãe de Pedro, 15, e Julia, 12, não se preocupa muito com o alerta. Cada filho tem seu iPod, mas costumam não exagerar na dose diária de música. "Com tantas atividades, não sobra muito tempo para o iPod. Por isso não tenho me preocupado muito em impor limites", diz.
"O som do iPod é muito alto, mas eu sempre escuto a música com o volume do meio para baixo. Som muito alto me incomoda", garante a caçula Julia.
Se a geração iPod dá o bom exemplo, aquela que cresceu com o walkman nos anos 80 já não é tão precavida assim. O decorador Luís Silva, 32, dono de um iPod mini, diz que coloca o som de seu brinquedo nas alturas. "O volume sempre varia de acordo com a qualidade do som. Um MP3 com muita compressão fica mais baixo que um CD original ripado. Mas em geral, ouço com o volume bem acima do meio", diz Luís, adepto à festas regadas com um som eletrônico na potência máxima.
E é aí que mora o perigo. De acordo com uma pesquisa realizada pelo Dr. José Jarjura Jorge, os jovens que saem para dançar à noite com freqüência devem ter muito mais cuidado com os ouvidos. "Concluímos que os jovens de 21 a 25 anos que afirmaram ir à discoteca pelo menos três vezes por semana já apresentam lesões em algumas freqüências auditivas", alerta o médico, acrescentando que o estudo avaliou os hábitos de 1 mil estudantes entre 14 e 25 anos. "As lesões talvez não sejam tão freqüentes com o uso consciente do iPod do que com a exposição constante ao som alto das casas noturnas".
Um iPod pode ser mais prejudicial para a audição que uma moto-serra
O volume máximo varia com a qualidade da gravação, mas no geral, o iPod atinge 112 decibéis. Mais do que uma moto-serra (100 db) ou uma britadeira (110 db). A preocupação aumenta uma vez que a qualidade sonora da maioria dos MP3 players é bem superior ao do antigo walkman, fazendo com que um som alto seja ouvido sem ruídos ou distorções.
Além do volume, é preciso atenção ao tempo de exposição ao som. Um aumento de apenas dez decibéis pode significar a redução do tempo de exposição pela metade. "Um trabalhador exposto a ruídos de 80 db tem carga horária de 8 horas diárias. Se a intensidade sobe para 90 db, a carga deve cair para 4 horas", explica o otorrino José Jarjura Jorge.
Um volume de 100 decibéis não deve ser escutado por mais de 30 minutos diários. Para fones de ouvido, vale o bom senso: se você não escuta as vozes das pessoas a sua volta, o volume deve estar acima de 60 db (a intensidade média de uma conversa). E se as pessoas a sua volta escutam o som que sai do fone de ouvido, é hora de abaixar o volume!